Todo 21 de setembro, as redes se enchem de frases do tipo "uma árvore neutraliza 150 kg de CO₂". É um número redondo, fácil de compartilhar e que passa a impressão de ser uma regra da natureza. Mas de onde ele vem? E vale para qualquer árvore, em qualquer lugar, em qualquer idade? Para responder, é preciso começar pelo que a árvore de fato faz com o carbono. Ela não o "consome" nem o faz desaparecer: pela fotossíntese, usa luz, água e CO₂ para produzir açúcares, e a maior parte desse material acaba virando estrutura, ou seja, tronco, galhos, folhas e raízes. O carbono fica estocado ali enquanto essa estrutura existir. É por isso que vale distinguir o estoque, que é o quanto de carbono a árvore acumulou em toda a sua biomassa, do fluxo, que é o quanto ela captura por ano. Quando alguém diz que uma árvore "absorve" determinada quantidade de CO₂, quase sempre está falando do estoque acumulado ao longo de décadas, e não do que ela captura em um único ano.
Como ninguém derruba uma árvore para pesá-la, a ciência florestal recorre a um método indireto. Primeiro, mede-se o diâmetro do tronco à altura do peito, o chamado DAP, tomado a 1,30 metro do solo, e a altura total da árvore. Em seguida, considera-se a densidade da madeira da espécie, porque madeiras mais densas guardam mais massa, e portanto mais carbono, no mesmo volume. Esses três dados alimentam uma equação alométrica, que estima a biomassa a partir das medidas. Uma das mais utilizadas em florestas tropicais é a de Chave e colaboradores, publicada em 2014, na qual a biomassa acima do solo, em quilos, é igual a 0,0673 multiplicado por (densidade × DAP² × altura) elevado a 0,976, com a densidade em g/cm³, o DAP em centímetros e a altura em metros. Com a biomassa estimada, aplica-se o fator de conversão para carbono, que no padrão do IPCC para espécies tropicais e subtropicais é de cerca de 47% da biomassa seca. Por fim, como o CO₂ tem massa molar 44 e o carbono tem massa molar 12, multiplica-se o carbono por 44/12, ou 3,67, para chegar ao CO₂ equivalente.
Vale acompanhar a conta com um exemplo didático. Imagine uma árvore com 30 cm de DAP, 15 metros de altura e madeira de densidade 0,6 g/cm³. A equação resulta em aproximadamente 440 kg de biomassa acima do solo. Desse total, cerca de 207 kg são carbono, e multiplicando por 3,67 chegamos a algo em torno de 760 kg de CO₂ equivalente. Não se trata de um valor de referência para uma espécie real, e sim de uma ilustração, mas ela mostra duas coisas importantes: o resultado depende diretamente do tamanho e da densidade da madeira, e o número final representa um estoque construído ao longo de muitos anos, e não uma captura anual. Isso já ajuda a entender por que os valores que circulam por aí são tão diferentes entre si. A espécie muda a densidade da madeira, a idade e o tamanho mudam a biomassa, e o clima, o solo e o manejo alteram o ritmo de crescimento. Além disso, cada estudo escolhe uma equação e decide se inclui ou não as raízes, e no nosso exemplo contamos apenas a parte acima do solo. Um número solto, sem espécie, idade e metodologia, é uma estimativa de valor bastante limitado.
Há ainda um detalhe que costuma ser ignorado: o crescimento de uma árvore não é linear, e árvores grandes e antigas não são "aposentadas" do ponto de vista do carbono. Um estudo publicado na revista Nature em 2014, conduzido por Stephenson e colaboradores, mostrou que, em muitas florestas do mundo, a taxa de ganho de massa de árvores individuais continua aumentando com o tamanho. Isso significa que uma árvore madura pode acumular carbono mais rapidamente do que várias árvores jovens juntas, e que derrubar exemplares antigos tem um custo climático que a simples reposição por mudas não cobre no curto prazo.
Outro ponto que a conta simples esconde é a permanência. O carbono só fica retido enquanto a madeira existir: se a árvore morre e se decompõe, ou se queima, uma parte volta para a atmosfera, enquanto a madeira transformada em produtos duráveis prolonga o armazenamento. Da mesma forma, plantar mil mudas não é o mesmo que ter mil árvores adultas, já que a sobrevivência depende da escolha da espécie, do preparo do solo, da irrigação inicial e da manutenção nos primeiros anos. E há a questão do tempo: uma muda estoca muito pouco carbono no começo da vida, então o plantio de hoje não compensa a emissão de hoje, apenas contribui gradualmente ao longo de décadas. Nos projetos de compensação, ainda entra o conceito de adicionalidade, segundo o qual só conta o que não aconteceria de qualquer forma. Proteger uma floresta que já estava protegida, por exemplo, não gera benefício adicional. E, por fim, o carbono nem é a única métrica que importa, porque sombra, infiltração de água, redução da temperatura local e abrigo para a fauna são serviços que a árvore presta independentemente da contabilidade de CO₂, e muitas vezes são o principal motivo para plantá-la.
Diante disso, o que fazer com essa informação? Em vez de repetir números redondos, vale priorizar espécies nativas adequadas ao local, que tendem a sobreviver melhor e a sustentar mais biodiversidade, e acompanhar o plantio ao longo dos anos, medindo sobrevivência e crescimento, porque isso vale mais do que a foto do dia em que as mudas foram colocadas na terra. Vale também lembrar que a compensação funciona como complemento, e não como substituto da redução das emissões, e desconfiar de qualquer número que não venha acompanhado de método, espécie e horizonte de tempo. Neste Dia da Árvore, plantar continua sendo uma ótima ideia. Só que ela fica ainda melhor quando vem acompanhada da conta certa.
Plantar é só uma parte da conta: o resto é regularização, método e acompanhamento. Na Sobral Soluções Ambientais, descomplicamos enquanto você cresce. Fale com a gente pelo
Facebook
Twitter
WhatsApp
